segunda-feira, 27 de julho de 2009

Ferramentas científicas ajudam na guerra contra remédios falsificados

"Vamos usar um pouco de dinheiro", disse Facundo M. Fernandez, professor de química, enquanto pegava em sua carteira uma nota de dólar em péssimas condições e entregava a seus alunos de graduação.

Minutos mais tarde, depois de passar a nota através das máquinas de alta tecnologia do laboratório, os químicos descobriram o que procuravam: indícios de cocaína.

Fernandez, professor do Georgia Institute of Technology, disse que a demonstração, repetida com outras notas oferecidas por um repórter, mostrou o quanto a cocaína está penetrada nos Estados Unidos e como aquelas máquinas eram sensíveis.

Elas são capazes de identificar instantaneamente os elementos químicos de alimentos, drogas e praticamente tudo que se coloca diante de sua abertura de aço inoxidável. Os usos das máquinas, conhecidas como espectrômetros de massa, são muitos - o Departamento Federal de Segurança Nacional ajudou financeiramente no estudo de Fernandez, a fim de descobrir se a tecnologia pode ajudar na busca por explosivos em aeroportos.

No entanto, o foco principal de Fernandes são medicamentos falsificados, especialmente em países ricos, onde a regulamentação governamental é fraca. Ele faz parte de um grupo informal de pesquisadores e oficiais do governo da África, Ásia e Estados Unidos, que se uniram à Interpol, a agência internacional de polícia, para usar tecnologia de ponta a fim de rastrear medicamentos falsificados que alegam tratar a malária. Medicamentos contra a malária falsificados representam uma preocupação especial devido à escala e à gravidade da doença - ela mata mais de duas mil crianças por dia, somente na África - e aos temores de que drogas falsificadas ou que não atendem às regulamentações estão agravando um problema crescente de resistência aos medicamentos.

Durante anos, cientistas têm sido capazes de analisar os ingredientes de uma pílula ou cápsula usando espectrômetros de massa, que identifica as substâncias químicas ao medir a massa molecular. Entretanto, o processo como um todo era demorado, levando cerca de uma hora por amostra.

Um marco científico, ocorrido em 2005, acrescentou uma "arma de íon" às máquinas e permitiu a Fernandez checar centenas de pílulas por dia. Um técnico simplesmente segura a amostra - uma pílula, comida de cachorro ou nota de dólar, por exemplo - em direção à maquina, que emite jatos de gás hélio e captura uma quantidade mínima do material, identificando instantaneamente seus componentes.

Ao contrário da crença comum de que medicamentos falsificados são apenas pílulas de açúcar, disse Fernandez, a maioria deles tem algum nível de ingrediente ativo. Muitos contêm o analgésico paracetamol, barato e amplamente disponível, que pode temporariamente aliviar alguns sintomas, mas não combate verdadeiramente a doença.

Às vezes, pesquisadores encontram químicos perigosos ou bastante inesperados. Uma vez, quando analisavam o que se acreditava ser uma pílula anti-malária, sua equipe descobriu pequenas quantidades de sidenafil, o principal ingrediente do medicamento contra impotência Viagra.

"Nos sentimos como detetives", disse Fernadez, natural da Argentina. "Nunca sabemos o que vamos encontrar".

O negócio dos medicamentos falsificados se tornou cada vez mais atraente para grupos criminosos. O potencial de lucros é vasto, mas a punição para aqueles flagrados na atividade é tipicamente menos severa que para o tráfico de drogas ilegais, como cocaína, afirmam oficiais de cumprimento da lei.

Isso ocorre na Ásia, onde muitos países impõem pena de morte para o tráfico de heroína, ecstasy ou até mesmo maconha, mas o combate aos medicamentos falsificados não é uma prioridade.

Há três anos, a Organização Mundial de Saúde estimou que um em cada quatro medicamentos farmacêuticos vendidos nos países em desenvolvimento era falsificado. É impossível saber exatamente em que nível isso ocorre, mas existe um consenso geral de que os níveis de falsificação de medicamentos são "inaceitavelmente altos", nas palavras da própria OMS.

"Descobrimos que nenhum tipo de medicamento foi poupado", disse Aline Plancon, chefe do departamento de medicamentos falsificados da Interpol. "Não são apenas remédios básicos. Há também medicamentos medicinais, vacinas, entre outros".

Os remédios falsificados se tornaram mais sofisticados nos últimos anos, fabricando pílulas e embalagens idênticas às dos medicamentos verdadeiros.

Porém, como o trabalho de Fernandez e de outros, o trabalho de detetive também está se tornando mais tecnológico, com a ajuda de ferramentas forenses inovadoras.

Dallas C. Mildenhall, outro cientista na rede contra os medicamentos falsificados, ajuda a rastrear as drogas falsas ao analisar os grãos de pólen microscópicos nas pílulas ou embalagens. Investigadores forenses usaram grãos de pólen durante décadas para ajudar a resolver casos de assassinato e outros crimes, mas Mildenhall foi pioneiro a usar grãos minúsculos, que estão em todos os lugares, em roupas, narinas, cabelos, alimentos e quase tudo que fica exposto ao ar, para ajudar a combater a falsificação de medicamentos.

Pelo fato de que muitas plantas são específicas de certas partes do mundo, o pólen ajuda a determinar onde as drogas foram produzidas. "Marcas de pólen nos dão uma ideia do ambiente", disse Mildenhall, por telefone, de seu escritório na Nova Zelândia, onde ele trabalha como pesquisador na GNS Science, uma organização governamental. "É molhado, seco, quente, frio? O solo é ácido ou não?"

O trabalho de Mildenhall ajuda a estabelecer que muitas drogas falsificadas vêm da área de fronteira entre a China e o Vietnã, assim como a área próxima ao Triângulo Dourado - local famoso pela produção de heroína, onde as fronteiras de Laos, Mianmar e Tailândia se encontram.

Há três anos, uma análise realizada por Mildenhall de grãos de pólen e minerais específicos encontrados em medicamentos falsificados ajudaram a atrelar a produção a um local particular no sul da China. Numa operação chamada de Operação Júpiter, a Interpol entregou as provas, e o governo chinês prendeu três suspeitos.

Agora, Mildenhall está envolvido num projeto liderado por Paul N. Newton, diretor do Centro Universitário Oxford para Medicina Tropical no Laos, que busca determinar se medicamentos anti-malária falsificados encontrados na África foram importados da Ásia ou produzidos localmente.

"Na África, muitas vezes se diz que as drogas falsificadas vêm da Índia e da China", disse Newton, de seu escritório em Vientiane, capital do Laos. "Não temos provas no momento para confirmar ou negar essa afirmação".

Os resultados do estudo deverão ser divulgados no final deste ano, disse Newton, que liderou pesquisas sobre medicamentos anti-malária falsificados.

O uso da tecnologia para combater a falsificação de medicamentos tem sido um "complemento necessário" para um trabalho policial à moda antiga, disse Plancon, da Interpol. No entanto, ela firmou que o principal obstáculo para a repressão da falsificação era a falta de disposição política e cooperação entre países.

"Os políticos precisam entender que este problema é muito mais sério do que pensam", disse ela, em entrevista por telefone, de seu escritório em Genebra. "Quanto mais trabalhamos nessas redes criminosas, mais observamos que elas estão interconectadas por todos os continentes".

Plancon afirmou que a polícia estava descobrindo grandes quantidades de medicamentos falsificados na Ásia. No ano passado, numa coordenada ação policial de repressão, chamada de Operação Storm, a Interpol anunciou que 200 incursões policiais no sudoeste da Ásia resultaram na apreensão de 16 milhões de doses de medicamentos falsificados, com um valor de venda de US$ 6,6 milhões.

Oficiais do Camboja, China, Laos, Mianmar, Cingapura, Tailândia e Vietnã participaram da operação, que resultou em 27 prisões.

Sabine Kropp, chefe das atividades anti-falsificação de medicamentos da OMS, disse que o papel da Interpol tem ajudado a pressionar governos a tomar atitudes. "Existe muito mais discussão", disse Kopp. "Existe muito mais consenso para compartilhar informações".

Todavia, existem também sinais de que o problema está se espalhando. Plancon afirmou que a polícia estava descobrindo não apenas medicamentos falsificados, mas outros objetos médicos, como sacos de sangue, seringas, curativos e lentes de contato.

Espectrômetros de massa podem ter um importante papel em eliminar alguns dos medicamentos falsificados. Fernandez, da Geórgia Tech, está usando-os para testar se redes de mosquito tratadas com inseticida, uma forma crucial de combate à malária, são autênticas.

Uma grande limitação do uso da tecnologia é o custo. Um espectrômetro de massa típico vale cerca de US$ 150 mil, algo impraticável para governos de países mais pobres.

Entretanto, com o tempo, Fernando espera que os custos diminuam o suficiente para que as máquinas possam ser instaladas em farmácias locais.

"Sempre sonho que, em algum momento, o consumidor final possa checar a autenticidade do medicamento", disse Fernandez. "Você coloca o comprimido diante de uma máquina e recebe uma luz verde ou vermelha. Isso seria o fim dos medicamentos falsificados".

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